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sexta-feira, 3 de julho de 2015

Anedonia: a vida em preto e branco

Anedonia, etimologicamente, faz referência a Hedone, a deusa grega do prazer e, com seu “a” de negação, já sabemos o que a palavra quer dizer. Anedonia é a dificuldade ou incapacidade de uma pessoa em sentir prazer ou se motivar a realizar atividades que antes eram prazerosas. Isso inclui reuniões com amigos, uma atividade de lazer ou mesmo o prazer sexual, com a pessoa muitas vezes relatando que “a vida perdeu o sabor” ou que “não consegue vibrar com mais nada”. Ocorre mais comumente na Depressão (sendo um dos critérios diagnósticos), mas também pode ocorrer na Esquizofrenia e em quadros crônicos de outros transtornos (como as Fobias e o TOC).

Afeto, humor, sentimento e emoção

São praticamente a mesma coisa, não? Bom, na psicologia e na psiquiatria são conceitos diferentes. O afeto humano é complexo e, assim, seu estudo é igualmente complicado, sendo necessário definir em detalhes os diversos estados afetivos que podemos ter a fim de entender melhor suas alterações do dia-a-dia ou na vigência de um transtorno mental. Por isso, essas palavras não são sinônimos.

Afeto é um conceito mais amplo. É qualquer qualidade emocional que acompanha uma ideia ou pensamento e, assim, engloba os conceitos de humor, sentimento e emoção.

O humor é um “tônus emocional”, como que um plano de fundo com uma longa duração que orienta as experiências afetivas de um indivíduo em determinado sentido (ex: um humor depressivo favorece sentimentos e emoções negativas em relação às situações sendo vivenciadas).

As emoções são estados afetivos intensos e agudos, porém curtos. Ou seja, são reações desencadeadas por estímulos internos ou externos, conscientes ou inconscientes.

Já os sentimentos são intermediários entre o humor e as emoções, mais estáveis e menos intensos. Estão relacionados ao conteúdo intelectual e cultural de cada pessoa.

Em resumo, dentro de um “plano de fundo” emocional chamado humor, temos, dependendo do contexto e dos valores culturais de cada um, sentimentos diversos orientados por ele (melancolia, saudade, culpa, contentamento, confiança, raiva, revolta, amizade, amor, gratidão, etc). E, uma vez tomados por determinado sentimento, temos reações afetivas mais intensas que ocorrem imediatamente após um pensamento, uma conversa, uma lembrança ou outros desencadeadores, chamadas de emoções (as quais, em geral, não são definíveis por palavras).


Anedonia x apatia

Mas qual seria a importância dessa diferenciação de conceitos? Bom, muitas vezes confundimos a anedonia com a apatia. Ambas frequentes nos transtornos mentais, nem sempre estão presentes simultaneamente. A anedonia se aproxima mais de uma alteração das emoções que do humor e do sentimento: a pessoa não sente prazer (uma reação emocional mais aguda a certas atividades que causam “bem-estar mental”), mas ainda pode ter seu humor e sentimentos bem ativos (mesmo que seja na forma de um humor depressivo, por exemplo). Já a apatia é a incapacidade de sentir afetos, o que quer dizer que estão comprometidos desde o humor até os sentimentos e as emoções, como que numa ausência completa de experiência afetiva (ou uma espécie de “afeto neutro/indiferente”).

Em psiquiatria, que trabalha com a elaboração de diagnósticos, um erro de diferenciação entre esses dois termos pode culminar em erros de conduta.

O cérebro na anedonia

Obter prazer é uma tarefa mais complicada do que parece, pelo menos a nível cerebral. São muitas as estruturas cerebrais envolvidas e suas interconexões, ainda mais numerosas. Em um geração, uma experiência prazerosa segue 3 passos para que o afeto seja atingido: a excitação (ou a expectativa), a avaliação (identificar se determinada atividade ou situação está realmente sendo prazerosa ou não) e a expressão da emoção desencadeada (por alterações neurovegetativas ou comportamentais). Isso tudo ocorre pela atuação do sistema de recompensa cerebral, que associa situações consideradas positivas com a sensação do prazer e impulsiona o indivíduo a repetí-las.

Nisso, 2 grandes conjuntos de estruturas estão envolvidos: o sistema ventral (composto por amígdala, núcleo accumbens, ínsula, porção ventral do estriado e regiões ventrais do giro cingulado e córtex pré-frontal) e o sistema dorsal (com hipocampo e regiões dorsais do giro cingulado e córtex pré-frontal). O primeiro é responsável por identificar o significado afetivo de cada estímulo externo, gerando as respostas afetivas correspondentes, além de realizar o controle das funções autonômicas (frequência cardíaca, frequência respiratória, pressão, sudorese, etc) em resposta às emoções. Já o segundo se responsabiliza pelo controle consciente do afeto através de funções executivas como o planejamento e a atenção seletiva.

A nível mais molecular, muitos neurotransmissores estão envolvidos (serotonina, glutamato, acetilcolina e mesmo colecistoquinina), mas o que mais se destaca é a dopamina. Envolvida na grande maioria das estruturas citadas acima, ela parece se relacionar, em especial, com a motivação na busca da recompensa.

De todas as estruturas envolvidas, uma das mais importantes nas pesquisas sobre o assunto é a o estriado ventral, em especial por refletir a atividade do núcleo accumbens. Os estudos de imagem mostraram uma queda considerável em sua atividade em pacientes com anedonia, quando comparados com indivíduos saudáveis. Ao contrário do que se esperaria, a atividade do córtex pré-frontal ventro-medial (CPFVM) estava aumentada na vigência de anedonia quando os pacientes eram expostos a estímulos alegres e diminuída com estímulos tristes (de modo diferente do que ocorria nos voluntários saudáveis). Apesar de parecer um contra-senso, esse excesso de atividade poderia ser secundário: o mais provável é que o CPFVM esteja se esforçando mais para processar estímulos positivos do ambiente em uma tentativa falha de melhorar o humor e atingir emoções positivas.

Sabe-se, então, que esses pacientes têm alterações funcionais em tais regiões cerebrais, assim como uma menor atividade dopaminérgica nas mesmas vias. Contudo, isso é apenas uma pequena parte da complexa rede que processa o afeto, sendo necessários muitos novos estudos para entendermos melhor o contexto mais amplo dessa neuropsicopatologia.

Por que saber sobre ela?

Sendo a anedonia um sintoma, mais que um transtorno em si, seu tratamento envolve o tratamento da condição subjacente, tendo ela um valor mais diagnóstico que terapêutico. É importante entender que um paciente com anedonia nem sempre é depressivo: muitas doenças orgânicas, pela incapacidade que causam, ou outros transtornos mentais podem causar anedonia nos pacientes. Da mesma forma, não se deve esperar a anedonia para diagnosticar um quadro depressivo. E, assim como dito anteriormente, é preciso conhecê-la para diferenciá-la de condições semelhantes (como a apatia), mas que têm significados diferentes dentro na fisiopatologia das doenças.

De qualquer maneira, é uma condição que merece atenção pela acentuada redução da qualidade de vida que provoca, favorecendo o surgimento de quadros depressivos, quando esses ainda não estão presentes, e mesmo aumentando risco de suicídio em pacientes psiquiátricos. Conhecer a psicopatologia envolvida e a neurofisiologia por trás do quadro permitirá a melhor compreensão da saúde mental e seus distúrbios, bem como melhores tratamentos para os pacientes com anedonia.

Fontes: Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais, Dialogues in Clinical Neuroscience


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