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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O MUNDO RUMO A NOVA IDADE DAS TREVAS - Fernando Alcoforado*



TRADUÇÃO PARA O PORTUGUÊS DO ARTIGO PUBLICADO EM INGLÊS NO WEBSITE WRITER BEAT SOB O TÍTULO "THE WORLD TOWARD NEW DARK AGES"
O MUNDO RUMO A NOVA IDADE DAS TREVAS
Fernando Alcoforado*
A "idade das trevas" é um período da história que enfatiza as deteriorações cultural e econômica que ocorreram na Europa entre os séculos V e IX consequentes do declínio do Império Romano. A expressão Idade das Trevas referida à Idade Média foi muito utilizada no passado. Alguns historiadores usaram esta expressão, pois tinham como referências a cultura greco-romana e o Renascimento. De acordo com estes historiadores, a Idade Média foi uma época com pouco desenvolvimento cultural, pois a cultura foi controlada pela Igreja Católica. Afirmavam também que praticamente não ocorreu desenvolvimento científico e técnico, pois a Igreja impedia estes avanços ao colocar a fé como único caminho a seguir. O rótulo "idade das trevas" é empregado no tradicional embate entre luz versus escuridão para contrastar a "escuridão" deste período com os períodos anteriores e posteriores de "luz".
Geralmente, a Idade das Trevas se refere ao período da história que teve início com a queda do Império Romano do Ocidente. O termo "trevas" foi usado para caracterizar práticas retrógradas que prevaleciam durante este período da Idade Média. A Idade das Trevas aconteceu quando o último imperador do Ocidente, Rômulo Augusto, foi deposto por Odoacro, um bárbaro. Esse evento aconteceu em 476 DC. A Idade das Trevas foi também os anos das conquistas muçulmanas. Juntamente com outros nômades e guerreiros com cavalos e camelos, os muçulmanos atravessaram o império em decadência, causando estragos e semeando heresia intelectual e social em seu caminho. As conquistas muçulmanas prevaleceram até a época das Cruzadas que ocorreram de 1096 a 1270. Este antigo conflito entre o Cristianismo e o Islamismo permanece até hoje.
A Idade das Trevas foi uma época conturbada. Invasores errantes a cavalo atacavam os campos. Surgiram conflitos religiosos. Os muçulmanos conquistaram terras. A escassez de boa literatura e realizações culturais e práticas bárbaras prevaleceram. O período da Idade das Trevas foi visto também como uma época de fé. Homens e mulheres buscavam a Deus. Alguns através dos mais sérios rituais da Igreja Católica, outros em formas protestantes de adoração. Os intelectuais, por sua vez, viam qualquer religião, por si mesma, como um tipo de "escuridão". Estes pensadores afirmavam que as crenças religiosas alienavam as pessoas criando uma falsa realidade. Estavam dominados pelas emoções, não pela razão. A religião era vista como contrária à racionalidade e à razão, e essa mentalidade foi que deu início ao Iluminismo – um afastamento da “escuridão”. A ciência e a razão ganharam ascendência, progredindo de forma constante durante e após a Reforma Protestante e o Iluminismo.
O fim do Império Romano e a "quebra" da economia escravista são explicados por alguns historiadores como resultados do assalto dos povos bárbaros que teve como consequência a destruição do sistema econômico escravista. Outros historiadores têm procurado ver na própria crise interna do império, particularmente a partir do século IV, as sucessivas revoltas antiescravistas e camponesas que assolaram os últimos anos do Império Romano como causas da decadência romana e sua fragilidade em face dos povos bárbaros. Isto é, o império estava condenado antes do assalto dos povos bárbaros, sendo que a presença das tribos germânicas teve o papel de tornar complexa uma crise em pleno curso. Outros historiadores identificam o fim do Império Romano no expansionismo militar e sua crise, com a consequente dificuldade de refazer os contingentes de escravos, assim como o colapso das estruturas fiscais e financeiras do império, que tiveram um papel central na crise romana.
O Império Romano era, em verdade, varrido por uma grande vaga de revolta social, normalmente enfrentada com incrível rigor pelas autoridades romanas. Alguns historiadores viam nas revoltas antiescravistas e camponesas manifestações de banditismo ou simples "tumultos" em um mundo assaltado pela barbárie não levando em conta a profunda miséria da grande maioria das populações romanas escravizadas. A ordem social romana estava seriamente abalada desde o reinado de Cômodo (180 DC), quando surge um profundo movimento insurrecional na Gália. Este movimento, que se estende até o século V, foi consequência da pauperização crescente das massas trabalhadoras do campo.
No seu conjunto, todo o Império Romano empobrecia. As cidades destruídas pelas primeiras invasões mal são reconstruídas, as minas são abandonadas (sinal máximo do empobrecimento romano) e os jogos circenses são interrompidos. Junto ao povo a situação é bem mais dramática porque nos campos, a miséria lança sobre as grandes rotas bandos de vagabundos e desocupados que, em busca de trabalho, dinheiro ou comida, se transformavam em bandidos. Daí era um passo para, em bandos mais ou menos armados, surgirem como real ameaça à ordem estabelecida. Não havia grupos organizados politicamente e agrupados em torno de uma ideologia qualquer.
Na era contemporânea, o equivalente ao Império Romano é representado pelo imperialismo exercido pelos Estados Unidos e os bárbaros são os povos dos países capitalistas periféricos e semiperiféricos objetos há séculos da espoliação imperialista exercida pelas grandes potências ao longo da história. Da mesma forma que o fim do Império Romano se explica pelo expansionismo militar e com o colapso de suas estruturas fiscais e financeiras o mesmo está acontecendo com os Estados Unidos que, enfraquecido econômica e financeiramente, já não reúne mais as condições de expandir seu poder militar em todo o mundo. Da mesma forma que o Império Romano estava condenado antes do assalto dos povos bárbaros, os Estados Unidos apresentam também as mesmas características.
Da mesma forma que as sucessivas revoltas antiescravistas e camponesas que assolaram os últimos anos do Império Romano foram, também, causas da decadência romana e de sua fragilidade em face dos povos bárbaros, os governos dos Estados Unidos e de seus aliados enfrentam dificuldades para manterem subjugadas as populações no interior de seus países, especialmente, no momento atual de crise profunda do sistema capitalista mundial responsável pela queda na atividade econômica e a elevação dos níveis de desemprego que atinge profundamente o proletariado e a classe média. A manutenção da ordem pública está se tornando cada vez mais difícil nesses países. A era contemporânea de declínio do capitalismo aponta no sentido de que estamos caminhando a passos largos para uma era tão obscura quanto foi a Idade das Trevas na Idade Média.
A Humanidade mergulha em nova Idade das Trevas porque estamos vivenciando, também, crescente desintegração social em todos os países do mundo, o incremento dos conflitos internacionais e, até mesmo, a ameaça de sobrevivência da vida no planeta resultante da mudança climática catastrófica em curso. A gigantesca crise do sistema capitalista mundial e o declínio dos Estados Unidos como potência hegemônica econômica e militar se associam à luta dos bárbaros modernos representados pelos povos dos países capitalistas periféricos que buscam sua emancipação da espoliação exercida pelas grandes potências capitalistas lideradas pelos Estados Unidos. A invasão dos bárbaros modernos ocorre no momento com a presença na Europa Ocidental e nos Estados Unidos de grupos terroristas oriundos, sobretudo dos países islâmicos.
Tudo indica que já estamos às vésperas de uma transição entre o sistema capitalista em declínio e o advento de um novo sistema econômico cuja passagem será tão traumática quanto à do escravismo para o feudalismo na Idade Média haja vista a dificuldade ou impossibilidade de conciliar os interesses das potências imperialistas lideradas pelos Estados Unidos e os povos espoliados do mundo inteiro. Esta dificuldade ou impossibilidade resulta do fato de o sistema capitalista dominante se caracterizar pela onipresença de sua ideologia mercantil que ocupa ao mesmo tempo todo o espaço e todos os setores da vida. Esta ideologia não diz nada mais do que: produza, venda, consuma, acumule! Ela reduziu todas as relações humanas em relações mercantis e considera nosso planeta como uma simples mercadoria. O dever que nos impõe é o trabalho servil. O único direito que ele reconhece é o direito à propriedade privada. O único deus que ele adora é o dinheiro.
A onipresença da ideologia mercantil com o culto ao dinheiro faz com que a humanidade fique sujeita à ação do sistema mercantil totalitário. O homem, a sociedade e o conjunto de nosso planeta estão ao serviço desta ideologia. O sistema mercantil totalitário realizou o que nenhum totalitarismo conseguiu fazer antes: unificar o mundo à sua imagem. Hoje já não existe exílio possível. Até atingir o colapso, o sistema capitalista mundial produzirá mortes e destruição em uma escala sem precedentes na história da humanidade em todos os quadrantes da Terra. A barbárie caracterizada pelas revoltas e revoluções sociais em cada país e pelos conflitos internacionais será a principal marca do sistema capitalista mundial até o final de sua trajetória. À medida que a opressão capitalista se estende por todos os setores da vida, a possibilidade de revolta adquire aspecto de uma guerra civil em escala nacional e global que já se manifesta na atualidade. A destruição da sociedade mercantil totalitária que impera hoje é inevitável porque o sistema capitalista já está condenado à morte. Estamos apenas no início de motins, revoltas e revoluções sociais que renascem em toda parte do planeta e anunciam o fim da nova Idade das Trevas e a emergência de um novo Renascimento.

História do autor:
*Fernando Alcoforado, 76, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015) e As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016). Possui blog na Internet (http://fernando.alcoforado.zip.net). E-mail: falcoforado@uol.com.br.

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